Síndrome do Intestino Permeável: Porque esse assunto é importante?

Se você costuma ler/ouvir notícias em inglês e se interessa por assuntos relacionados a dieta e saúde, já deve ter ouvido a expressão “leaky gut syndrome” ou simplesmente “leaky gut“. Essa expressão, que pode ser traduzida simplesmente como diarréia para o português, também significa intestino permeável.

Estudos científicos associam essa condição com diversas doenças, como alergias, doenças auto-imunes, problemas de pele, diabetes tipo 1, entre outros problemas de saúde. Deu para perceber que o assunto é sério, certo? Nesse artigo, você vai entender o que é essa condição, bem como os impactos que ela pode causar. Saiba mais!

ilustração do sistema digestivo completo

Afinal de contas, o que é a síndrome do intestino permeável?

Como funciona o intestino?

Antes de entrar nos pormenores dessa tal síndrome do intestino permeável, que tal uma revisão de como o intestino grosso funciona? Confira abaixo um vídeo excelente do professor Jubilut, explicando passo a passo como funciona o sistema digestivo:

Pois então, esse vídeo nos mostra um pouco mais sobre como funciona o intestino, as vilosidades e as paredes intestinais. Mas o que será que pode acontecer se esse mecanismo não funciona corretamente?

Doença celíaca é apenas um exemplo

Com a identificação da doença celíaca, muitos de nós passamos a entender melhor a relação entre o glúten e os intestinos, as informações sobre os impactos do glúten na nossa saúde se tornaram mais acessíveis e as prateleiras dos supermercados ganharam uma infinidade de produtos sem glúten. Certo?

A doença celíaca nada mais é que a intolerância ao glúten, mas de uma forma muito intensa. As partículas não digeridas do glúten (especificamente a gliadina), estimulam a produção de zonulinas pelo intestino que, por sua vez, “abrem” as junções das células do intestino, permitindo que essas partículas de glúten penetrem a barreira intestinal.

Como essas partículas de glúten estão onde não deveriam, o sistema imunológico entra em ação. Na tentativa de remover essas partículas, as paredes intestinais ficam inflamadas. Essas inflamações recorrentes, levam a destruição das vilosidades do intestino, que passam a funcionar de forma cada vez menos eficiente, levando a quadros sérios de desnutrição.

Aliás, em muitos casos, não basta apenas eliminar o glúten da dieta. Outros cereais possuem proteínas semelhantes ao glúten, que disparam os mesmos efeitos que o glúten no corpo do celíaco. Por exemplo: a proteína secalina da cevada e a hordeína do centeio também possuem os mesmos efeitos que o glúten.

Mas já parou para pensar… E se o glúten não é a única substância que aumenta a permeabilidade dos intestinos? (Confira o nosso artigo sobre grãos e legumes).

Agora sim: O que é a Síndrome do Intestino Permeável?

A grosso modo, a síndrome do intestino permeável nada mais é do que o aumento da permeabilidade das paredes de proteção do intestino. Essa condição permite que fragmentos de bolo fecal entrem na corrente sanguínea.

E o que acontece quando elementos estranhos (bactérias, partículas de alimentos parcialmente digeridos, enzimas, etc) entram na corrente sanguínea? Elas disparam processos inflamatórios nas mais diversas partes do corpo.

Nos celíacos, as inflamações normalmente se concentram nas paredes do intestino, gerando os sintomas que já conhecemos. Agora, quando essas inflamações se concentram em outras partes do corpo, o resultado é outras doenças.

Viu só porque esse assunto é muito importante? Por sinal, estudos correlacionam a condição de intestino permeável com as seguintes condições:

  • Alergias
  • Asma
  • Autismo
  • Doenças auto-imunes (doenças onde o sistema imunológico “ataca” células saudáveis do próprio corpo. Alguns exemplos: lúpus, vitiligo, esclerose, doença de chron, etc)
  • Eczemas e psoríase
  • Doença inflamatória intestinal
  • Artrite reumatóide
  • Síndrome de Resposta Inflamatória Sistêmica
  • Diabetes tipo 1

Como a síndrome do intestino permeável começa?

As paredes do intestino são revestidas por um tecido permeável que, quando saudável, permite passar apenas nutrientes e água pelos orifícios em suas junções. Entretanto, quando essas junções estão comprometidas, toxinas, micróbios e comida parcialmente digerida podem cair diretamente na corrente sanguínea.

Quais as causas?

Existem diversos estudos que correlacionam a ingestão de determinados alimentos com essa síndrome. Por exemplo, o glúten é uma dessas substâncias. Entretanto, os mecanismos exatos pelas quais essa síndrome realmente acontece ainda permanecem desconhecidos para a comunidade médica e científica.

Porém, existem condições que podem comprometer as paredes do intestino, sendo algumas delas:

Dieta pobre em nutrientes

Estresse crônico: Já se sabe que o estresse enfraquece o sistema imunológico, o que diminui a capacidade do mesmo de combater agentes patogênicos e limpar o organismo.

Exposição prolongada a toxinas: Você já parou para pensar em quantas químicas entram em contato com o seu corpo todos os dias? Seja por contato, alimentação ou simplesmente pelo ar?

Se vamos tomar banho: a água é tratada com agentes químicos, nós usamos produtos químicos para fazer nossa higiene (sabonete, shampoo, condicionador, entre outros), nós usamos hidratantes com substâncias químicas…

Se vamos tomar água: a água é tratada com agentes químicos.

Se vamos comer vegetais, grãos ou frutas: a grande maioria dos alimentos de origem vegetal são produzidos com o uso de pesticidas.

Se vamos comer qualquer produto de origem animal: grande parte da indústria da carne (seja frango, bois ou qualquer outro animal), utiliza rações, antibióticos e melhoradores de desempenho – que nada mais são do que substâncias químicas.

Quando ficamos doentes e tomamos um remédio… Adivinha só, mais químicas.

Sim, nós vivemos cercados de agentes químicos. Viver num ambiente 100% livre químicas é virtualmente impossível. É claro que nem todos esses componentes são tóxicos para nossa saúde, mas uma boa parte é!

Excesso de enzimas produzidas durante a digestão podem danificar as paredes o sistema digestivo: Essa condição pode acontecer por diversos fatores, entre eles o consumo de alimentos que contém substâncias que inibem a atuação de enzimas digestivas. Por exemplo, determinados grãos e leguminosas.

Desequilíbrio nas bactérias do intestino (Disbiose): Como sabemos, o nosso intestino é habitado por uma infinidade de bactérias, sendo que essas terminam de digerir partículas de alimentos. Quando esse ambiente entra em desequilíbrio, bactérias nocivas podem se proliferar, prejudicando as paredes do intestino.

Esse desequilíbrio pode ser causado por diversos motivos. Desde o excesso de antibióticos, até toxinas dos próprios alimentos, água tratada com clorina e fluoritos e uma presença pobre de probióticos e prebióticos na alimentação.

Quais os efeitos de um intestino permeável?

Inflamações

A primeira reação do corpo aos “agentes estranhos” na corrente sanguínea é lutar contra eles o mais rápido possível. Inicialmente, o fígado é acionado para tentar filtrar as partículas que não deveriam ter passado pelas paredes do intestino. Na maioria dos casos, o fígado não é capaz de conter o fluxo contínuo de toxinas, partículas de alimento não digerido, bactérias e outros agentes patogênicos.

Quando isso acontece, o sistema imunológico é acionado e sua prioridade é expulsar os agentes estranhos o mais rápido possível. O sistema imunológico desempenha esse papel produzindo anticorpos (antígenos).

Na grande maioria das vezes, o sistema imunológico também não consegue deter o fluxo constante, e grande parte dessas partículas acabam sendo absorvidas por tecidos ao longo do corpo, causando inflamações. No caso da doença celíaca, essas inflamações acontecem principalmente nas paredes do intestino.

Aliás, as inflamações também são respostas do sistema imunológico. Sempre que uma partícula ou corpo estranho é absorvida por algum tecido, o resultado é uma inflamação na região afetada. Essa é a forma que o corpo encontra de aniquilar o organismo estranho.

Uau, quanto trabalho para o sistema imunológico, certo? Além de ter que deter as partículas estranhas que, graças ao intestino permeável, estão fluindo pelo sangue, ainda precisa tomar as ações necessárias para eliminar as inflamações nos tecidos. Nesses casos, quando o sistema imunológico está sobrecarregado, as tarefas recebem prioridade, e são atendidas conforme o seu potencial de prejudicar a sobrevivência imediata. Nesse caso, as inflamações dos tecidos recebem menor prioridade, o que leva a um efeito cumulativo no corpo.

Esse processo cumulativo pode levar o sistema imunológico a “atacar” tecidos saudáveis do próprio corpo. Sendo essa última condição a principal característica de doenças auto imunes.

Intolerâncias

Uma vez que seu corpo começa a produzir anticorpos para essas partículas que “passaram” pelo seu intestino, você passa a desenvolver intolerâncias para determinadas substâncias dos alimentos, como glúten, lactose, entre outros.

Isso acontece pois o sistema imunológico possui memória, sabia? Quando nosso organismo entra em contato com corpos estranhos, o sistema imunológico tem o trabalho de identificar essas partículas e começar a produzir células que possam combater essas possíveis ameaças. Em uma segunda ocasião, o sistema imunológico não precisa ter o trabalho de identificação, pois ele já conhece a possível ameaça. É esse mecanismo que entra em ação no caso de intolerâncias e sensibilidades a determinados alimentos.

Se você tem sensibilidade a muitos alimentos, é muito provável que você tenha a síndrome do intestino permeável. Qualquer partícula de alimento não digerido que cai na corrente sanguínea é considerada ameaça pelo seu corpo, e seu sistema imunológico vai desenvolver reações para muitas dessas partículas, levando as intolerâncias.

Sintomas de um intestino permeável

Um dos grandes problemas da síndrome do intestino permeável é que, como ela pode gerar inflamações em qualquer lugar do corpo, seus sintomas são muito variados! Algumas pessoas sentem inchaço e diarréias, outras dores de cabeça, mudanças de humor, entre outros.

Outro ponto negativo é que, como os sintomas são muito variados, normalmente tanto quem sofre do sintoma quanto os médicos, nem desconfiam dos reais motivos. Levando a uma série de exames e tentativas para suprimir os sintomas, sem necessariamente descobrir as causas deles.

Uma das únicas maneiras de ter 100% de certeza é justamente a biópsia de amostras do intestino (que, vamos combinar, não é um exame muito agradável de se fazer), mas mesmo para chegar nesse tipo de exame, é necessário excluir outras causas.

Mas segue abaixo uma série de condições associadas a síndrome do intestino permeável:

  • Sensação de inchaço e gases;
  • Sensibilidade ou alergia a determinados alimentos;
  • Problemas digestivos;
  • Ganho de peso;
  • Fatiga;
  • Dores nas juntas;
  • Dores de cabeça;
  • Doenças inflamatórias no intestino;
  • Doenças auto imunes;
  • Má absorção de nutrientes, como zinco, ferro e vitamina B12;
  • Inflamações na pele (particularmente acne e psoríase);
  • Problemas de humor: A resposta inflamatória característica da síndrome do intestino permeável ativa a liberação de citocinas pró-inflamatórias e outras substâncias que induzem a depressão.
  • Problemas de tireóide.

Precauções e Cuidados

Mas calma que não é o fim dos tempos! É possível melhorar a sua alimentação de forma a prevenir e combater o aumento da permeabilidade das paredes do intestino. Obviamente que você precisará melhorar a sua alimentação e equilibrar melhor suas refeições.

Para isso, procure usar a seguinte estratégia:

  • Remover os alimentos que fragilizam as paredes do intestino
  • Trocar por alimentos que não prejudicam o intestino
  • Adicionar alimentos que ajudam a curar e repor a flora intestinal

Antes de mais nada, é necessário identificar os alimentos que colaboram para as condições que levam a alteração da permeabilidade dos intestinos.

Alimentos para evitar

Açúcares

Colaboram para o crescimento de bactérias nocivas no intestino, colaborando para o desequilíbrio da flora intestinal. Por sinal, para saber mais sobre os demais efeitos do açúcar, confira nosso artigo: açúcar faz mal?

Grãos e leguminosas

Grãos e leguminosas possuem lecitinas e fitatos. Essas suas substâncias dificultam a digestão desses alimentos, fazendo com que parte desses alimentos cheguem mal digeridos no intestino. Essa condição favorece também favorece o desequilíbrio da flora intestinal. Para saber mais sobre o assunto, confira o nosso artigo grãos e leguminosas: entenda a grande polêmica da dieta paleolítica. Aliás, lembre-se que o trigo é um grão!

Alimentos processados

Alimentos processados são ricos em conservantes, aromatizantes, emulsificantes e espessantes.

Os conservantes tem a única finalidade de prolongar o tempo útil desse alimento nas prateleiras do supermercado ou freezer (ou seja, é o que aumenta a validade desse alimento).

Já os aromatizantes tem a finalidade de melhorar o cheiro desses alimentos, para que eles fiquem mais irresistíveis.

Os emulsificantes e espessantes tem a função de melhorar a textura dos alimentos, conferindo maciez, engrossando caldos, etc.

Muitas dessas substâncias são potencialmente ruins para o intestino. Fora que elas normalmente não adicionam nenhum valor nutricional aos alimentos. O lema é: desembale menos, colha mais. 😉

Leite e derivados

Muitas pessoas são intolerantes à lactose em diferentes níveis. Se você não tem alergia ao leite, você pode até consumir esses alimentos com uma certa moderação. Mas lembre-se: com moderação.

Óleos processados ou danosos para a saúde

Óleos vegetais, milho, soja e outros óleos normalmente são superaquecidos, o que danifica seus nutrientes ou podem prejudicar sua digestão. Para cozinhar, prefira óleo de côc, ghee e até mesmo banha de animais criados soltos, com alimentação orgânica. Por sinal, não esqueça de visitar o nosso artigo sobre gorduras do bem.

Alimentos que ajudam a curar

Caldo de osso: contém colágeno e os aminoácidos prolina e glicina, ambos podem ajudam a tratar as células danificadas do intestino. Mas o caldo de osso deve ser feito com ossos de galinha, boi ou peixe alimentados soltos, sem ração ou grãos.

Kefir e probióticos: alimentos ricos em probióticos ajudam a recolonizar o intestino com boas bactérias, além de auxiliar a eliminação de bactérias ruins.

Vegetais fermentados: esses alimentos são ricos em probióticos, além disso, ajudam a balancear o PH do estômago. Alguns alimentos dessa categoria: chucrute, kimchi, etc.

Vegetais sem amido cozidos no vapor: vegetais sem amido, como brócolis, couve-flor (entre outros), são ricos em fibras e nutrientes, além de ser muito fáceis de digerir. Por sinal, os alimentos liberados na dieta paleolítica costumam ser benéficos para o seu intestino. Saiba mais!

Gorduras saudáveis: óleos e gorduras saudáveis ajudam a promover a saúde do sistema digestivo como um todo: ovos (principamente a gema), abacate, óleo de coco são de fácil absorção e essenciais para a saúde. Alimentos ricos em ômega 3 também benéficos. 😉

Frutas: consumir 1 ou 2 porções diárias de frutas podem ajudar a curar o intestino permeável. Caso você esteja procurando emagrecer, é necessário considerar consumir apenas frutas de índice glicêmico mais baixo. 😉

Conclusão

Seguir uma dieta baleanceada é essencial, não apenas para manter o peso ou emagrecer, mas também para melhorar a saúde como um todo! Basta lembra da quantidade de doenças que estão associadas com um estilo de vida sedentário e uma dieta rica em alimentos processados: a síndrome do intestino permeável é apenas uma delas.

Tem alguma dúvida ou sugestão sobre esse artigo? Aproveite os comentários!

boneco de sapo usando o banheiro

Fontes:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *